Insúria


14/08/2005


Se marcar o bicho pega

Diego Ramires

 

locomotivam-se

             loucos moviam – se - xta-feira street fighter

muita mutreta

topetes hardcore

          (chama o delegado de plantão) e

panca de atireiopau no gato

                      na esquina do supermercado

          

Escrito por Diego Ramires Bittencourt às 20h05
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12/08/2005


Clássicos (Édson Cruz)

Fonte: www.cronopios.com.br

 

Num país de poucos leitores, talvez se justifiquem as indicações de leituras e as exigências, veladas ou não, de que se leiam os clássicos. Mas o que são clássicos, e para quem? Cara-pálida!
No dicionário encontramos algumas acepções relevantes, e outras que simplesmente levamos ao lixo. Falemos das relevantes. Aquelas obras cujos valores foram postos à prova do tempo, parece boa. Aquelas sem excessos de ornamentação, sóbrias, também nos parece.
Mas, qualquer opinião ou indicação bem intencionada é sempre arbitrária. Quanto mais bem intencionada, mais arbitrária. E, nós que somos a elite deste país, ou seja, temos o que comer, sabemos ler, temos acesso à internet e fazemos parte deste caldo de cultura, criamos nossas regras para podermos ser, confortavelmente, mais arbitrários. Claro que nosso discurso é bem elaborado; argumentamos bem, somos retóricos em nosso convencer.
Pound, por exemplo, embora ainda distante do advento da internet, dá dicas, orienta, classifica: os escritores podem ser inventores; mestres; diluidores; bons escritores sem qualidades que saltem aos olhos; especialistas em algum aspecto; os que lançam modas. Para ele, os bons escritores são a classe que produz a maior parte do que se escreve, e a boa familiaridade com o que ele chamou de inventores e mestres, poderia nos servir de orientação para melhor identificarmos o que seria, ou não, relevante em literatura.
Os inventores são aqueles que descobriram um novo jeito de fazer, ou de dizer, as coisas e os mestres aqueles que combinaram bem, ou melhor do que os inventores, estes processos.
Lembro-me de um depoimento de Paulo Leminski que dizia evitar a literatura relacionando-a com a mitologia, a ideologia e a religião. Talvez ele tenha razão e a literatura seja um pouco disso tudo. Cada um escolhe a sua. O certo é que nós nos deixamos enganar constantemente pelo o que é bem feito e bem acabado.
Os insights e o bom humor de Italo Calvino são muito relevantes nesta introdução à questão. As famosas, e quase clássicas, catorze definições do que sejam os clássicos botam pimenta na questão.  Três destas definições resumem, para mim, a questão:

Os clássicos são aqueles livros que chegam até nós trazendo consigo as marcas das leituras que precederam a nossa e atrás de si os traços que deixaram na cultura ou nas culturas que atravessaram.

Os clássicos são livros que, quanto mais pensamos conhecer por ouvir dizer, quando são lidos de fato mais se revelam novos, inesperados, inéditos.

É clássico aquilo que tende a relegar as atualidades à posição de barulho de fundo, mas ao mesmo tempo não pode prescindir desse barulho de fundo.

Relegar as atualidades a barulho de fundo; essa é demais. Aliás, quando nos deparamos com algo que realmente importa tudo o mais é relegado a barulho de fundo. Um ‘ruído branco’ que continua presente, ou melhor, é o próprio presente, mas que não atrapalha nosso transporte para outras dimensões do eu e das épocas. Mas como saber se o que nos enleva não é o próprio ‘ruído branco’? Este é o desafio que se nos apresenta. Independente das complicações levantadas aqui, o fato é que nosso tempo de vida é curto e os livros são inumeráveis. Como dizia Borges, aprendamos a escolher. A questão está posta, quem quiser que conte outra.

 

Édson Cruz

Escrito por Diego Ramires Bittencourt às 03h56
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Ladrão que rouba ladrão...

Merece nota de felicidade realmente. Quem poderia imaginar. Até ontem éramos um povo descrente, agora a situação se inverte, evoluímos em alguma coisa. Tudo bem, as falhas devem ser sanadas, contudo estamos no caminho certo é o que mostra o assalto ao Banco Central em Fortaleza (túnel com ar condicionado, luz, conforto, cama de casal, tv de 29°, cartoon network).

 

Roubar R$ 150 milhões não é muito fácil, ainda mais que o ofício de assaltante está saindo de moda, graças aos “bem amados” de Brasília. Enquanto o país parava para assistir a novela das CPI’s, um bando de sete anões escavava um túnel que atravessava quintais, cachorros, avenidas, câmeras, guaritas com sono para se encontrar com as maravilhosas notas amarelas do mandachuva financeiro nacional - A Branca de Neve deve estar igual ao Frank Aguiar (acho que é ele) rindo à toa...

 

O problema do brasileiro é o desejo incontrolável de ser convidado de festa de aniversário, sempre tacando os dedos no bolo, deixando sujeira pros outros limpar e o pior de tudo esbanjando os docinhos que escondeu no bolso antes de cantar parabéns.

Escrito por Diego Ramires Bittencourt às 03h43
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Plataforma de Embarque

Diego Ramiers

 

desbravando

                 power point

espetáculo de miragens anoréxicas

aspectos incógnitos

                     no meio da multidão

rodoviária

                ônibus partindo

noturno

rumo experimentado  anos de receio confessos

                 onde estará

                                    lá me esperando¿

Escrito por Diego Ramires Bittencourt às 03h40
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Ab-surdo

Jovens pedem ao Papa para aprovar uso de camisinha



COLÔNIA, Alemanha, 11 ago (AFP) - Jovens de todo o mundo que chegaram nesta quinta-feira à Alemanha farão um pedido ao Papa Bento XVI durante as Jornadas Mundiais da Juventude em Colônia (oeste). Eles querem que o Papa aprove o uso de camisinha para evitar a disseminação da Aids, segundo anunciaram num comunicado de imprensa.

*Fonte: Corpo e Saúde

 

 

Fico a imaginar por algum momento, após ler tamanha estupidez, se a Inquisição acabou ou se existe uma nova investida da igreja católica favorável às doenças sexualmente transmissíveis. Ridículo mesmo é a mentalidade de tais jovens (os benditos frutos) em pedir para legalizar a camisinha...Que me perdoem seus crentes remanescentes, mas o que pode fazer um senhor prostrado aproveitando seus anos de senilidade com o manto magno da Igreja?

Foi-se o tempo onde a Igreja gozava de grande autonomia e imperialismo no mundo e deveria ser agora o tempo da geração pepsi twist criar consciência entre sexo e gonorréia, sexo e sífilis, sexo e Aids, sexo e hepatite...

 

Pior de tudo que para fazer cagada ninguém pede, agora quando é para uma vez na vida acertar o lazarento faz questão de se ajoelhar e pedir autorização...Faça-meo favor, assim não dá...

 

Escrito por Diego Ramires Bittencourt às 02h47
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10/08/2005


Cego

Diego Ramires

 

letra – me dédalo

                  numa confissão

imiscua

            nó astig

(mata)

a jugular

trança

                        mega - trevas

 

Escrito por Diego Ramires Bittencourt às 03h01
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Quem lê Caras não vê Mensalão

A novela em Brasília ainda não terminou e muitos fartos espectadores já jogam seus alpistes: pizza, farofa ou laranjas?

Enquanto nada acontece; muitos personagens e candidatos a galãs, galegas, têm a oportunidade de aparecer ou reaparecer na tv – lisão de todas polegadas.

Roberto Jet-Erson de anônimo a bem amado dos hortifrutigranjeiros e da nação em geral, ACM Neto “o coronezinho” – eleito símbolo homo sexual da CPI – José Dirceu com seu charme de Manobrando, Marcos Rasputin Valores, inclusive cotado a ganhar o Oscar da corrupção brasileira, Heloisa Helena há três anos esquecida – vencedora do prêmio fazendoafogueira 2003 –, Seve rindo Cavalgando que ano passado levou a estatueta, Defunto Soares, Fernanda Karinha So Meiga, ex-secretária de Marcos Rasputin Valores e nova coelhinha Playboy, Duda Lambança, Já Sinto Lama, Vou Teimar Costa Neto, Sandro Má Fé e diversos outros nomes ganhando os holofotes.

 

É a saturação da informação transformando oportunistas, exclusivistas, cafajestes e cretinos em mitos da história nacional.

Escrito por Diego Ramires Bittencourt às 00h41
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07/08/2005


Luiz Guerra nos brinda com seu talento!

Luiz Guerra, poeta e escritor dos grandes (mestre) usando e abusando!

 

é clara a geometria
sob cujos planos
ganha vida o recinto
em descontínuo
desdobrar de intenções
sem origem nem história
lá fora, lá fora
é clara a geometria,
e uma só fratura
no cotovelo entre dois planos
recompõe do que restou
outra figura,
outros rescaldos
do nítido perfil
de engano, auto-engano
e simulacro
é clara a geometria
dos faróis desgovernantes
é clara a geometria
da régua em descompasso
é clara a geometria
onde o reverso
é novamente o caminho
do pano para os fios,
onde a esquina dobra para o beco,
e a rua corta o tempo
em dois pedaços de tormento

 

 

 

Heráclito e o Velho Poço

 

Deixemos surgir.
Lugar para o compromisso
sem porta nem janelas
mas também sem telhas,
só astros, pássaros e insetos
como visitantes
enquanto preparo o manuscrito
à luz de um coração repleto
de calor e poesia,
à luz do abrigo
e zoeira interior do eremita.
Consistência e vigência,
palavras simples
enroscadas no que alimenta
o ritmo do verso.
Deixemos surgir —
Heráclito em criança apanhava água no poço
sem nunca trazer-lhe do fundo
essa suspeitosa verdade
que esfregou na cara do mundo,
ele, sim,
filósofo do que se perdeu,
poeta dos fragmentos.

 

 

Reflexão

 

é vizinhança
quem se afasta de si mesmo

 

Escrito por Diego Ramires Bittencourt às 01h53
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Até quenfim!

A Globo agradece e nós também!

da Folha Online

Em reunião neste sábado, o diretório nacional do PT aprovou o afastamento do ex-tesoureiro do partido Defunto Soares. O desligamento deverá durar até a conclusão das investigações pela Comissão de Ética.

BRASÍLIA (Reuters) - A CPI dos Correios decidiu produzir relatórios parciais para dinamizar a conclusão das investigações e deve sugerir, em dez dias, a abertura de processo disciplinar contra parlamentares cujas provas já justificariam a cassação. Até agora, foram citados no inquérito, direta ou indiretamente, 18 deputados e senadores.

 

Escrito por Diego Ramires Bittencourt às 01h07
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05/08/2005


Diego Ramires

 

caminhando

no pensamento

dentes de pokemon

e minúsculos olhos de kryptonita

um soco seco

               conclusão:

até nunca

             a overdose                                          

Escrito por Diego Ramires Bittencourt às 00h52
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Manifesto Marginal - I

Manifesto Marginal 


Por Diego Ramires

Para todos os artistas, de todas as classes, para todos que se comprometem, que se doam à perpétua foda artística, este manifesto, infesto e cansado da monogamia repulsiva da arte.

 

Chega do ultrajante sofismo, basta, chega de desprezo e de caminhar a trilha dos aleijados, chega da humilhação em calçadas, da conclamação por eqüidade, queremos dignidade, dignamente somos artistas, também somos dignos sem mentiras e ultrajes.

 

 

                                               Diego Ramires Bittencourt – 31/03/2005

 

.................................................................

 

Prólogo

 

Devo dizer que é lamentável, lamentável dizer que inertes vivemos, sofremos os abusos e a opulência da idiotice, eu digo.

Estamos, não estamos, sem situação, inanição, conclamando, reclamando pedindo e implorando miséria quando devemos, devo dizer, devemos lutar por decência.

A sociedade, os sapiens, a nova idade, nem liga, está ligada em Latino, festa no Apê, a velha idade, se bate, late, saúda o saudosismo infame e infringe o curso natural da coisa. Não deixam e se queixam, dos novos artistas, unicamente a merda na pista, o resto e o restante do que outros deixaram.

Livros, estátuas, pinturas, sinceramente, gravuras de merda, perda, perdidos em instantes, nas salas da bienal, nas paredes, nas estantes, esta é a realidade real da situação.

O artista, pobre dele, está podre, porque sociedade, sem sapiendade é nada. Vejamos, enxerguemos, testemunhemos, averigüemos, o problema não está na carência de incentivo, está no incentivo da carência de nossos valores. A criança prefere jogos eletrônicos, eletrizando a infância e destituindo a cultura. Não adianta, de que adianta pensarmos em fazer alguma coisa sendo que a coisa está sendo feita de maneira errada?

Não adianta...

Por exemplo: Uma cidade cujo cú se vê sujo com uma má administração dará ênfase de fato a outras coisas para que a sujeira caia em esquecimento aos ignorantes. 

A cultura enobrece os pobres, os pobres por sua vez pensarão, deixarão de ser massa para adquirir consciência, coisa que o político não quer.

Melhor para os graúdos é a tal da política titica: Arroz, feijão e futebol.

Escrito por Diego Ramires Bittencourt às 00h51
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Manifesto Marginal - II

 

Estado de Inanição

 

Claro, eles pensam! Mas tudo é escuro na sombra...

                             Diego Ramires

 

Confabular projetos, divagar sobre intentos, manifestos e manifestações sem força para perpetuar, novamente, não minto, não adianta...

Adianta ver, as fábricas de névoas – Rexroth -  enevoando e enervando seus estudantes com estudos ridículos?

Um estudante na década de sessenta até a noventa, década da estagnação, valia mais do que mil estudantes atuais. Um poeta, um escritor na década de sessenta valia mais do que milhares de escritores e poetas atuais.

Acho engraçado, presenciar a graça daqueles que por exemplo: Lêem Bakunin, querem implantar o anarquismo, porém, entretanto, contudo, todavia, lêem ao pé da letra, lastreiam a utopia do anarquismo e não pesquisam, desconhecem sobre Babeuf e Emma Goldman. Mesma coisa digo dos comunistas, lêem Marx e Engels, mas não lêem Trotsky, desconhecem sobre a partilha e o pensamento de Cristo, aonde foi fundamentado o comunismo, digo o mesmo aos nacionalistas xenófobos...O erro está em desconhecer a situação que quer melhorar, porém todo mundo acha que conhece...

Melhorando, o melhor mesmo, antes de tudo seria: Organização e coragem...

Este segundo, segundo a maioria está em falta no momento...

Escrito por Diego Ramires Bittencourt às 00h49
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Manifesto Marginal - III

 

Coragem é o principal tempero para encarar e transformar - coragem para dizer basta desta bosta, quero respeito porque mereço não mendigar por aí.

 

Para se ter coragem, deve-se encorajar a pesquisar afundo sobre algo que queira mudar, seja a sala da casa, seja a cidade que habita.

 

No caso do artista, triunfar no meio, exige a extinção do mistério, largar mão do monastério que vive e ganhar as ruas, as avenidas, fazer passeatas, divulgar e escandalizar, ligar em rádios para proferir os abusos absurdos.

 

Novamente: não adianta, chorar incentivo se não incentivar uma comunhão entre o meio, lutar sozinho não ganha guerra.

 

Para começar:

As editoras filhas da puta pensam que somos patos prontos para ser devorados, pensam que só acadêmicos possuem vez na fila, que só quem tem produção publicada merece oportunidade. Errado, quantos autodidatas bons por aí produzem com grande nível de excelência?

Muitos, só que nossas livrarias estão cheias de muita bosta e a pequena parcela boa se perde por causa destes canastrões de plantão.

Da mesma forma, na fôrma do desprezo caem o pintor e o artesão, onde suas pinturas não passam de adornos de bar.

 

A sociedade necessita ser instigada, necessita de conceitos revistos, sem festa de Apê, as editoras precisam ser “violentadas” com desprezo também e os críticos precisam ser mais ignorantes para avaliar a criação daquele que cria.

 

 

 

Considerações Finais

 

Antes de querer, deve-se fazer, deve-se ter, deve-se tentar...

Atentar a cultura contemporânea, irritá-la, vociferar contra o desprezo em qualquer forma ultrajante, ultradegradante...

Ser artista é carregar o fardo foda da luta, ser mero poeta, escritor, escultor, pintor, artesão é brincar quando, no entanto, isto é profissão. Artistas somente poucos são na verdade, estes detêm do signo da eruptiva coragem e enfrentam o desdém dos repugnantes.

 

Artista mesmo poucos existem pois estes insistem em revolucionar...

Escrito por Diego Ramires Bittencourt às 00h48
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28/07/2005


Suicial

Diego Ramires

 

nadadeiras e

                     barbatanas até o suicídio

       eles de podres bueiros na boca

                            elas de sarnas

 

     e

 

 pulgas asquerosas

                    para o almoço

Escrito por Diego Ramires Bittencourt às 00h23
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27/07/2005


Insanos

Raymundo Silveira

 

Sempre fui uma pessoa normal. Descobri, de repente, que sou a única normal neste lugar. Até ontem, bem ou mal, me comunicava com alguém. Embora boa parte me evitasse. Não por minha culpa, evidentemente. Hoje todos amanheceram insanos. Acordei cedo e desci à portaria do prédio. O porteiro estava petrificado. Sequer esboçava, na fisionomia, algo que denotasse qualquer emoção ou sentimento. “Não está me reconhecendo?” Falei. Confirmou com três inclinações da cabeça. “Está doente?” Outros três meneios laterais: que não, que não, que não. Só!

 

Abro a caixa do correio abarrotada de correspondências. Nenhum dos remetentes existe. Jogo tudo fora. Saio para caminhar. Sempre detestei caminhadas. Faço-as para não parecer mais diferente do que já me acham, os anormais. Rua deserta. Logo mais, surgem três homens vindo em sentido contrário ao meu. Caminham como robôs. Lentos passos que repasso na memória e associo a um passado tenebroso. E inclinam os ombros para um lado e para o outro. Como pingüins.

 

Mais tarde encontro outras pessoas. Nenhuma me dirige palavras. Se as interpelo, nunca falam. Limitam-se a reagir como o porteiro do prédio. Todos concordam com o que digo. Quando afirmo qualquer coisa, respondem com gestos de lagartixas: que sim, que sim, que sim. Quando nego, como um gato enxugando a cabeça.

 

Por volta de meio dia, sinto fome. Entro num restaurante. Enfim, alguém disposto a falar comigo. Certamente, por causa da expectativa de vender. De lucrar. Todos são assim. Mas estou enganado. O garçom chega à mesa e me estende o cardápio. Sem pronunciar um cumprimento. Pergunto se ali não se fala aos clientes. Que sim! “Então fala comigo?” Que não! Sempre como a lagartixa e o gato. “Por quê?” Enfim, um gesto diferente: um dar de ombros. E se retirou, levando o menu.

 

Continuo sentado à mesa. Uma hora depois vem o gerente e me manda ir embora. Assim: sacudindo as mãos. “Quero comer. Estou com fome. Posso pagar”. Que não! Retiro o dinheiro do bolso e lhe estendo. Que não! Insisto e ameaço. Enfim ouço um som de voz humana: “Você não é gente!” Indignado, vou até à porta e aceno para dois transeuntes. Que me olham assustados. “Por favor, me ajudem. O gerente deste restaurante acaba de dizer que não sou gente. Digam pra ele o que sou”. Olham-me, agora, com indiferença. Imploro. Afinal, concordam em entrar.

 

“Senhor, aqui estão duas pessoas que podem provar que sou gente”. O gerente as interroga apenas com uma expressão inquiridora. Ambos meneiam as cabeças: Que não! E saem, imediatamente, caminhando naqueles passos de pingüins. O gerente me encara, ameaçador. Mímicas de “cai fora”. Estou morto de fome. Saio para o meio da rua. Agora, além da fome há um vento gélido a soprar. E tremo de frio.

 

 

www.raymundosilveira.net

 

 

Escrito por Diego Ramires Bittencourt às 19h04
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BRASIL, Sul, PONTA GROSSA, JARDIM CARVALHO, Homem, de 20 a 25 anos, Portuguese, Spanish, Arte e cultura, Livros, Cervejas, Cigarros
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